Uma história de som, emoção e humanidade
Talvez o Rádio seja o meio de comunicação que melhor soube se adaptar, pois ele surge como o grande facilitador e aproximador. Logo que outros meios foram surgindo, muitos datavam seu fim, porque este ou aquele iria assumir o posto de novo meio de comunicação de massa, encurtando distâncias e aproximando mais. Porém, o rádio se adaptou, se transformou, se renovou e inovou.
Sem dúvidas, o rádio é um dos meios de comunicação mais antigos e importantes da história da humanidade. Desde seu surgimento no final do século XIX, ele tem sido utilizado para transmitir notícias, entretenimento, música, cultura e educação. Ao redor do mundo teve uma rápida e importante evolução, que influenciou não só a sociedade, mas também a política e a economia.
Em nosso país, teve uma trajetória peculiar, com sua popularização em diferentes regiões como, por exemplo, em Minas Gerais e no sul de Minas, onde teve um papel fundamental na difusão da cultura e na integração das comunidades locais. Em 2022, o rádio no Brasil comemorou seu primeiro centenário, estando mais forte e presente do que nunca.
Para dar início a essa bela trajetória centenária, precisamos retroceder um pouco, e contar como surgiram os primeiros sinais do que viria a se tornar o Rádio, esse veículo de comunicação que tanto amamos.
"O Rádio é com certeza a primeira e mais importante rede social que já existiu, muito antes da TV, do Youtube, Facebook, Instagram, Twitter, Tik Tok, Threads e outras redes. O Rádio sempre foi o lugar onde as pessoas ouviam e eram ouvidas."
O Rádio sempre foi o lugar onde as pessoas ouviam e eram ouvidas, seja num "Alô", num "Essa música vai para", seja num telefone ao vivo, numa carta lida no ar. O Rádio sempre trouxe proximidade, emoção, paixão. E quando falo em proximidade, é praticamente sentir o calor de alguém que te abraça, te acolhe e está junto sempre.
Quantas pessoas não entravam em contato para pedir um abraço, uma música, um alô para aquele outro alguém que estava distante, ou para selar e dizer o "Te amo", que talvez seja difícil dizer frente a frente? O Rádio sempre foi a ponte de muitas emoções e trocas. Por exemplo, daqueles que estão na praia, no clube, na reunião de família ou no churrasco com os amigos e ligavam no Rádio para ouvir um som que marcou época, ou só mesmo para dizer, "tamo aqui ligado".
Tudo começa ainda no século XIX, nos anos de 1800, com estudos sobre as ondas eletromagnéticas, dentre outras tecnologias que vinham sendo estudadas na época. O Rádio surge da união das tecnologias desenvolvidas provenientes destes estudos: a telegrafia, o telefone e as ondas de transmissão foram grandes embriões do Rádio.

Os primeiros aparelhos de rádio eram peças de mobiliário e tecnologia de ponta.

Guglielmo Marconi, inventor italiano do primeiro sistema prático de telegrafia sem fios.
Apesar de oficialmente o Rádio ter sido inventado em 1896, anteriormente houveram inúmeras outras descobertas extremamente importantes e necessárias para se entender a propagação do som por ondas radiofônicas. As principais formas de transmissão de sinais de Rádio são a AM (Amplitude Modulada) e a FM (Frequência Modulada). As emissoras AM utilizam um espaço no espectro de frequência que vai desde 530 KHz até 1.600 KHz, enquanto as emissoras FM utilizam um espaço no espectro de frequência que vai desde 88 MHz a 108 MHz. Além das ondas AM e FM, existem as frequências UHF e VHF, que dependendo de sua característica é mais utilizada para TV em alta definição, bluetooth e wireless.
Com o passar das décadas, o rádio evoluiu das grandes transmissões AM para a tecnologia FM, trazendo mais qualidade de som e música. Hoje, vivemos a era digital, onde o rádio se funde com a internet, podcasts e streaming, mas sem perder sua alma.
O Brasil teve sua contribuição na história do surgimento da Rádio, apesar de pouco conhecido mundo afora. O cientista e inventor brasileiro, Padre Roberto Landell de Moura teria em 1892 construído o primeiro transmissor sem fio de mensagens e entre os anos de 1893 e 1894 realizou a primeira transmissão falada e sem fios através de ondas eletromagnéticas. Porém, como não há registros do feito, ele nunca foi reconhecido como tal.
Oficialmente, quem leva o título de "pai do rádio" no Brasil é o cientista e educador Roquette-Pinto, que em 7 de setembro de 1922 foi o responsável pela primeira transmissão oficial de Rádio, realizada na então capital nacional, Rio de Janeiro. Com aparelhos receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, os primeiros sinais de Rádio de forma oficial no Brasil foi através de uma transmissão do discurso do presidente da república, Epitácio Pessoa.
Segundo dados do Ministério das Comunicações, antes da pandemia, em 2019, o total de rádios no Brasil era de 9.000 emissoras. Em 2022, esse número passou para 10.176 – um crescimento de 13%. Dentre estas emissoras, cerca de 4 mil são FM, quase 2 mil AM e mais de 4 mil rádios comunitárias, sem contabilizar aqui as web rádios que estão presentes por todo o Brasil.
Os números comprovam a força contínua do rádio como meio de comunicação global. Segundo dados do segundo semestre de 2022 em pesquisa realizada pela Edison Research, no estudo Share of Ear, o Rádio sintonizado via FM, AM, FM digital e AM digital é consumido por 88% da população dos Estados Unidos.
Já segundo dados da Nielsen Media Research, mais de 90% dos norte-americanos ouvem rádio, constatando que a audiência das estações via dial é imensa. Os dados referentes aos streaming mostram uma estabilidade nos estudos levantados, o áudio digital ao vivo via internet das FMs e AMs norte-americanas saltou de 5% em 2014 para 12% em 2022.
Com o surgimento da pandemia de COVID-19 em 2020 e o confinamento em várias localidades, notou-se um crescimento substancial de audiência das emissoras de Rádio no mundo. Segundo pesquisa da Kantar IBOPE Media que comparou dados de 2021 frente ao ano de 2019, houve um crescimento de 186% no consumo online de rádio.
consomem via smartphone ou tablet
utilizam desktop/laptop
possuem aplicativos de rádio instalados
Entre os ouvintes de rádios online pesquisados pela Kantar IBOPE Media, 57% afirmaram que consomem o áudio digital das emissoras através de um smartphone ou tablet. Já 35% afirmaram utilizar um desktop/laptop e 14% outros dispositivos (fatia que pode contar com as smart speakers, por exemplo, que estão avançando em consumo em vários países, inclusive no Brasil).
Entre todos os ouvintes de rádio pesquisados, 36% deles afirmaram que possuem aplicativos de rádio instalados em seus dispositivos em 2021. Para se ter uma ideia desse avanço, o valor era de 19% em 2017 segundo o estudo da Kantar IBOPE Media, representando um avanço de 86% nos últimos cinco anos. Isso comprova que o Rádio vem mostrando sua força e continua evoluindo e crescendo.
O rádio foi fundamental na comunicação durante as guerras mundiais e na integração nacional.
O rádio no Brasil foi o grande unificador nacional. Através das ondas curtas e médias, as notícias e a cultura alcançavam os cantos mais remotos do país. Era o rádio que trazia o resultado do futebol, as notícias do governo e as radionovelas que paravam o Brasil.
Durante a Primeira Grande Guerra (1914-1918), o Rádio se tornou uma ferramenta fundamental para a comunicação militar. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Rádio foi um recurso de comunicação essencial, tendo participação central nas estratégias operacionais e na propaganda relativa ao conflito. Durante a Guerra Fria (1947-1991) e a Guerra do Vietnã (1959-1975), todos estes conflitos foram amplamente divulgados e acompanhados pelas ondas do Rádio mundial.
Um dos momentos mais importantes da história foi a chegada do homem à Lua em 20 de julho de 1969, que trouxe uma das maiores audiências do Rádio e TV no mundo. No Brasil, na década de 60, eram cerca de 4 milhões de aparelhos de TV para quase 90 milhões de pessoas, ou seja, a grande maioria da população do país acompanhou o "grande passo da humanidade" através de transmissões nos Rádios brasileiras, direto dos Estados Unidos.
Participando de grandes momentos da história, seja para informar sobre a chegada dos aliados e o fim da grande guerra, seja na chegada do homem na lua, a vitória do Brasil na copa do mundo, ou no atentado das torres gêmeas, desde sua invenção e primeiras transmissões, até os dias de hoje o Rádio está presente e segue firme junto aos fatos e notícias mais importantes, mas levando ainda alegria, diversão, e o cuidado, o calor, a singularidade que outras mídias não conseguem levar.
O rádio é democrático, traz notícias, música, entretenimento, informações, traz experiências, participações dos ouvintes, boas conversas, bons debates. Do analfabeto ao letrado, do mais pobre ao mais abastado, dos mais jovens aos mais velhos, no Rádio todo mundo é igual.
Com o passar dos anos, as Rádios vão se moldando às novas tecnologias, ampliando seu alcance, atuando nas redes sociais, mudando e se atualizando. Foi assim que antes das emissoras de TV entenderem que o Streaming seria uma realidade comum hoje em dia, o Rádio entrou de forma pioneira e forte, com aplicativos, sites, e há décadas já atua neste formato, coisa que as emissoras de televisão começaram a atuar há pouco tempo.
Se pararmos para analisar, o Rádio sempre teve o know how, sempre foi e é pioneiro. Como exemplo, temos os famosos "Podcasts", que vemos inundar o youtube e a internet como um todo nos dias atuais, que nada mais é do que um formato de Rádio, que é levado para os vídeos.
As emissoras de televisão bebeu muito na fonte do Rádio. As novelas nasceram das radionovelas, que já eram em formato de capítulos. Os programas de auditório que tanto conhecemos já eram utilizados no Rádio há décadas. Ou seja, os principais meios de comunicação que conhecemos e a maioria dos formatos utilizados, só foram formatados para serem inseridos nas chamadas "novas mídias".
Ao longo dos anos, com o surgimento de novas tecnologias e meios de comunicação de massa como a televisão e a internet, muitos buscaram estes novos meios. Porém, o rádio conseguiu se reinventar e se renovar, se mantendo sempre forte, apesar de ter perdido um pouco de sua relevância como principal meio de comunicação.
Ainda é muito importante e presente na vida de muitas pessoas mundo afora. Seja através de transmissões tradicionais, streaming de áudio, podcasts ou plataformas digitais, o rádio continua sendo a voz que nos acompanha, nos informa, nos entretém e nos conecta.
A Rádio desde sempre trouxe educação, informação, entretenimento, notícias e a proximidade, influenciando outros meios de comunicação e estando ao lado de cada ouvinte a todo o momento. É o companheiro para todas as horas em todos os momentos, aquele que te acompanha o dia todo, te deixando sempre informado, te dando um bom dia, boa tarde, boa noite.
A história do rádio é a história de inovação, de adaptação, de humanidade. É a história de vozes que atravessam o tempo, conectando gerações, trazendo emoção, música e conhecimento. É a história de um meio que, apesar de todas as transformações tecnológicas, continua sendo essencial na vida das pessoas.
Este trabalho foi realizado através de estudos, pesquisas e análises detalhadas sobre a história do rádio no mundo e no Brasil, compilando informações de diversas fontes históricas, relatórios de audiência e dados técnicos.
Estudos e Textos Realizados por:
Jornalista e Radialista Weber Gomes
Especialista em História da Comunicação e Radiodifusão